O presente trabalho, inserido em uma corrente da crítica literária que compreende os processos
artísticos em sua mediação com processos sociais e históricos, tem por objetivo estudar o Teatro de
Arena de São Paulo, palco de grandes realizações estéticas e de produtivas discussões teóricas que
marcaram a modernidade do teatro brasileiro. Em termos formais, a principal contribuição do grupo
consiste em superar os limites da forma dramática por meio da inserção dos recursos épicos. Isso
corresponde, em termos políticos, a uma atitude de desmascarar os processos de alienação social
por meio da constante pesquisa social, histórica e estética – processos esses que se intensificavam
ao longo daqueles anos. O recorte para a compreensão dessas experiências é dado pela perspectiva
teórica, artística e crítica de Augusto Boal, que atuou como dramaturgo e diretor do grupo entre os
anos de 1956 e 1970. Sua vasta contribuição compreende desde suas primeiras direções teatrais no
Arena, inserindo o teatro de vertente realista/naturalista no país, aliado ao desenvolvimento de
Seminários de Dramaturgia, que contribuíram para a formação de pensamento crítico a respeito do
teatro brasileiro, passando pela criação de uma dramaturgia de caráter épico, eficaz para o
desenvolvimento dessa perspectiva no cenário teatral brasileiro.
Augusto Boal teve um importante papel como professor de dramaturgia, nas décadas de 50 e 60 tanto no Teatro de Arena, no qual fundou o Seminário de Dramaturgia e o Laboratório de Atuação, como na Escola de Arte Dramática (EAD). Ele integra o quadro de professores da escola a partir de 1960, ano em que Alfredo Mesquita, fundador e diretor da escola, abre o curso de Dramaturgia e Crítica, até a incorporação da escola pela USP, em 1968. Na EAD, Boal estabelece uma didática inovadora - como já havia ocorrido no Arena, com o ineditismo da pesquisa laboratorial que instituiu por lá após retornar dos Estados Unidos, onde estudou em Columbia - que consistia em ministrar aulas práticas e teóricas e incluir a vida cultural da cidade na sala de aula. O presente trabalho se baseia em anotações das aulas de Boal, material inédito que nos foi cedido pelo dramaturgo Lauro César Muniz. Analisa e reflete sua prática didática em contraste com demais escritos de Boal, principalmente o livro Teatro do Oprimido, no qual ele faz uma espécie de síntese das aulas ministradas na EAD. Utilizamos também, aulas da década de 60, contidas no Arquivo Augusto Boal. Do entrecruzamento e análise desse material surge o retrato de um artista ligado a seu tempo, trabalhando no trânsito entre prática política, didática e artística, tendo sempre a dramaturgia como mediadora.
Tese publicada em livro, em 2019, pela Desconcertos editora.
Esta dissertação pretende contribuir para as discussões sobre a aplicação do método do Teatro do Oprimido, desenvolvido pelo Brasileiro Augusto Boal, como um instrumento eficaz na luta contra o racismo, investigando a performance de um grupo de negros universitários do Rio de Janeiro, no ano de 1995 - tri-centenário da morte de Zumbi dos Palmares - na montagem do espetáculo de teatro - fórum intitulado 'O Pregador'.