Nascido em 1898 no interior de uma Espanha rural excessivamente católica e aristocrática, Federico García Lorca tornou-se um dos expoentes máximos da literatura espanhola e mundial. Sua obra teatral, impossível de ser separada de sua poesia, tornou-se bastante conhecida por sua envergadura trágica e por sua universal e recorrente temática de amor, morte e liberdade. Menos difundidos, mas não menos importantes, encontram-se o espírito lúdico e as formas de expressão não realistas que marcam toda sua dramaturgia. Estudando a biografia de Lorca em conjunto com seu teatro sobressai a figura de um artista preocupado com a renovação da cena e sua recepção, cuja meta era a realização de um teatro eminentemente popular: na linguagem e no acesso. Além do reconhecimento de um público culto esperado por um artista de sua época e contexto, Lorca queria que seu teatro chegasse ao povo, que atingisse as pessoas mais simples, com as quais convivera desde criança. Uma forma de expressão capaz de propiciar a concretização desses anseios foi o teatro de bonecos popular (técnica de luvas) conhecido como teatro de títeres ou guiñol (na Espanha) - cujas representações presenciadas nas praças e feiras andaluzes exerceram profunda influência sobre o imaginário de Lorca desde sua mais tenra infância. Este teatro somado às ricas experiências protagonizadas pelo autor enquanto um artista da vanguarda européia influenciou sua concepção sobre a arte teatral. Torna-se possível aproximar significativa parte das peças de Lorca ao atual teatro de animação que envolve o teatro de objetos, de sombra, a utilização de máscaras corporais/faciais, para citar apenas algumas dentre as inúmeras possibilidades que recheiam o gênero além dos títeres e outras técnicas de construção e manipulação de bonecos. A morte prematura do poeta dramaturgo, a proibição de sua obra na Espanha durante a ditadura do General Franco e a escassez da crítica sobre o teatro de títeres lorquiano são algumas das dificuldades que permeiam a identificação das obras que podem ser enquadradas nesta seara teatral. Não obstante, as estruturas presentes no cerne dos textos permitem essa associação a um conjunto de peças, do qual selecionamos para análise: O idílio da Carvoeirinha - representando a dramaturgia do teatro inédito da juventude do autor -, Tragicomedia de don Cristóbal y la señá Rosita farsa guiñolesca en seis cuadros y una advertencia e Retablillo de don Cristóbal - farsa guiñolesca - realizadas a partir da influência direta do teatro de títeres popular. As três obras, distintas entre si, são igualmente analisadas à luz de metodologias específicas, de acordo com suas peculiaridades, e foram escolhidas por representar diferentes períodos, ilustrando a trajetória da dramaturgia lorquiana e de seu teatro para títeres. O trabalho revela, portanto, as principais características da dramaturgia para títeres de García Lorca, numa abordagem que leva em consideração tanto as obras em foco e sua relação com outras peças do teatro lorquiano quanto os aspectos biográficos do dramaturgo enquanto encenador e pensador da arte teatral.
El malefício de la mariposa, de Federico García Lorca, reflexão e análise, tem como objetivo fazer uma reflexão sobre os aspectos dramático, social, poético e literário desta obra da juventude do poeta e dramaturgo espanhol. Para isto, percorremos uma trajetória que nos levou a pesquisa sobre a renovação do teatro espanhol, como uma proposta de inovação. Estudar esta obra no seu conceito social e como proposta de realização de um teatro total foi um mergulho no contexto histórico da época. Escrita em prosa e verso, o lirismo está presente na construção de um tema que trata da liberdade de escolha e valores intrínsecos à alma humana. A crítica social é clara quanto ao comportamento dos personagens representados por meio de insetos: baratas, escorpiões, vermes e a própria mariposa. Uma obra modernista que aborda conflitos existenciais entre ser e estar no mundo e o confronto com o próprio ser. A chegada de uma mariposa branca que cai ali no prado de baratas, com a asa machucada, incomoda pela sua luz, ofuscando a rotina dos insetos que ali vivem, acomodados em seu cotidiano em branco e preto. Em seu texto dramático, Lorca deu vida aos pequenos insetos, dotando-os de espírito e voz, aproximando esta obra da fábula infantil. Pesquisar sobre este gênero de literatura significou um encontro com vários autores que também elegeram os animais como representantes dos homens. Dentro de uma reflexão pessoal, pretendemos mostrar que esta polêmica peça de teatro, foi um marco decisivo de uma mudança expressiva nos conceitos teatrais da época.
MARIANA PINEDA: UMA REVOLUCIONÁRIA NA RECRIAÇÃO DE FEDERICO GARCÍA LORCA analisa a transposição dramática, do processo político da heroína granadina homônima. Celebrada em canções populares que entoam sua luta, Mariana borda uma bandeira liberal durante o governo de Don Fernando VII para agradar ao homem que amava, e foi condenada e executada. Lorca compõe uma obra dramática valendo-se de elementos de caráter telúrico que o fazem discutir questões intrinsecamente humanas a partir de sua heroína que, com seu bordado, defende o amor e liberdade. A personagem histórica Mariana Pineda, que inspiraria a produção artística de Lorca, viveu no início do século XIX e atuou na luta contra o regime monárquico de Fernando VII, realizando ações políticas de caráter partidário, o que a comprometeu com o governo despótico de seu tempo. A heroína defende seus valores de honra e liberdade, característica comum a outras personagens tradicionais femininas do teatro espanhol, em especial, dos dramaturgos do Século de Ouro. Lope de Vega será abordado devido aos aspectos telúricos, a valorização do feminino e aos contos populares que o aproximam do drama lorquiano. Assim, será realizado um estudo comparativo das obras dos dois autores espanhóis tomando como base o drama em estudo: Mariana Pineda de Lorca e a tragicomédia Fuenteovejuna de Lope de Vega.